sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

VOLTANDO PRA CASA


Oi, 

Vamos de ficção hoje? Só pra não perdermos o bonde, ok?

ALMA

Suas mãos estavam trêmulas. Durante a longa viagem de volta, ela apertara tanto os dedos que, agora, eles doíam intensamente. O táxi virou à direita e, então, ela reconheceu a rua. Era a mesma rua de há vinte anos. A mesma rua onde, nos seus primeiros quinze anos de vida, brincara, sonhara, descobrira o amor e a tristeza. Sim. A rua era a mesma. Tudo continuava no lugar. Tudo continuava igual. Menos ela, claro.

Quando o nó na garganta apertou e aquela sensação de estar sendo sufocada quase lhe tirou por completo o ar dos pulmões, Milena pediu ao motorista que diminuísse a velocidade. Ela queria chegar logo em casa, era verdade, mas "será que ainda é minha casa?"- pensou. Há vinte anos, ela saíra dali como se fosse um bandido qualquer. Fugira na calada da noite, depois de outro festival violento de porradas do pai. Era a terceira vez que ele fazia aquilo e sua mãe sempre se trancando no quarto aos prantos. Mas ele se fora agora. Há uma semana, Milena recebera a informação, por uma antiga vizinha, de que seu pai havia morrido. A lembrança daquela noite de surra e dor, no entanto, continuava viva. Ela estava com o corpo dolorido, os olhos roxos, o braço ralado e a alma despedaçada. Não via outra alternativa: precisava correr para longe. Precisava desaparecer. E desapareceu. Dois anos depois de sair de casa, sem dizer adeus, a pessoa que era morrera e outra nascera no lugar.

O táxi parou em frente a pequena casa verde de jardim mal cuidado e vidraças embaçadas. Milena pagou o motorista, que a ajudou a tirar as malas de dentro do carro e respirou fundo. Ela ficou ali parada diante daquela casa minúscula, que um dia parecera tão grande. Então a porta se abriu e um senhora frágil, com olhar triste a encarou. Diante da moça loira, bonita e vistosa, a idosa não teve dúvida.

- Marcelo? - ela aproximou-se de Milena. Passou a mão no rosto daquela que já fora seu filho - Marcelo, meu filho, é você? Marcelo, você... você se tornou uma... uma mulher tão bonita...

E elas se abraçaram com ansiedade. Um abraço que demorou vinte anos para acontecer. 

@aharomavelino

2 comentários:

Anônimo disse...

wow adorei... q bela homenagem! obrigada por tudo... kiss

Aharom disse...

A verdadeira Milena... adoro

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