domingo, 25 de dezembro de 2016

POR QUE ESCREVEMOS?

Leia com seu filho.

Já passava das 21h30, o supermercado estava entupido de pessoas (a aproximação do Natal produz esses fenômenos), e eu ali parado na fila do pão (literalmente). Entre uma verificada e outra no celular (esse vício em redes sociais ainda me mata), percebi que um sujeito, beirando uns 45 anos, passou me encarando e foi parar na gôndula de frios. Poucos minutos depois, lá vem o sujeito outra vez me encarando e dessa vez ficou lá mexendo nas cápsulas de café. Percebi que ele me observava porque sempre que nossos olhos cruzavam, ele desviava o olhar. 
Não estranhei aquele comportamento, na verdade, já estou acostumado... calma, não sou uma celebridade nem algo do tipo, sou professor e já estou nessa área há 25 anos (comecei muito jovem, ok?); sendo assim, é muito comum algumas pessoas praticamente da minha idade, se aproximarem e para dizer:
- Oi, Aharom? É você? Nossa, fui seu aluno há muito tempo!
Pois é, não sou a Xuxa, mas fiz parte da vida de algumas pessoas e marquei (para o bem ou para o mal) algumas gerações. Naquele momento no supermercado, eu cria estar diante de um antigo aluno que havia me reconhecido. Mas, não foi o caso. Depois de criar coragem, o sujeito se aproximou e acabou com o mistério:
- Você é o Aharom Avelino?
- Sim, sou eu.
- Caramba, é um prazer te conhecer - o homem me estendeu a mão.
- O prazer é meu - disse, ainda encabulado, enquanto lhe esticava a mão.
- Lemos o seu livro lá em casa e adoramos! - ele disse.
- Lemos? Como assim? Tipo uma leitura de família? - eu ri simpático.
- A professora da minha filha adotou o seu livro este ano e eu e minha esposa sempre lemos com ela os livros da escola. Ficamos encantados com sua obra.
Meu livro? Adotado em uma escola? Lido em família? Bateu a curiosidade.
- Qual dos dois livros você está falando?
- Viver não é preciso. Aliás, só entendi o título no final... é exatamente isso - ele riu.
Eu ri de volta.
- Eu voltei no tempo - ele disse - lembrei da minha infância, dos meus amigos, da minha família... que saudade... eu acho que nós vivemos a melhor época de todas.
- Eu também!
- Nada será como os anos 80...
- Não mesmo...
E então ficamos ali na fila falando de como foi mágico viver os anos 80, de como era gostoso ser criança naquela época. Nunca tinha visto aquele homem, talvez nunca o veja novamente; mas, por um instante, tínhamos muito em comum. E vê-lo comentando com entusiasmo vários trechos do meu livro e como isso o tocou foi, para mim, um presente de Natal.
Às vezes, as pessoas me perguntam por que eu escrevo, afinal vivemos num país que não lê. É complicado responder à essa pergunta. A gente (que se mete a contar histórias) escreve porque tem que escrever, porque temos necessidade de fazê-lo. E quando encontramos alguém que fora tocado por aquilo que escrevemos, percebemos que a gente escreve porque o universo assim o quis. 

Aharom Avelino

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